segunda-feira, 14 de maio de 2012

O Planeta agoniza

por Maria Lúcia Lauria Chiappetta



Surpreende-me sempre a maneira como o comum das pessoas se comporta no seu cotidiano. Não percebe o milagre que cada manhã oferece a olhos atentos e serenos. A natureza se esmera ao proporcionar a abundância e o descortínio do belo.

Os humanos que somos os racionais - na maioria desatentos ou indiferentes, cumprem sôfregos as obrigações imediatas do dia-a-dia, sem observar-lhes a relevância. O restante do tempo é destinado às exigências que o progresso enseja, na sua modernidade: desmedida ganância, suscitando constante apelo, vaidade pretensiosa, horas e horas dedicadas ao computador e à televisão, na conjuntura de jogos eletrônicos, no envio de mensagens inúteis ou de conteúdos vazios que nada acrescentam ao desenvolvimento de cada um, como pessoa. O comportamento virtual desperta o crescimento generalizado do individualismo, acarretando uma indiferença sistêmica e cruel ao flagelo do sofrimento.

Tão exacerbado é o sexo, como escape, motivando gozo e deleite transitórios, quanto na sua satisfação se supõe alcançar o nível elevado da relação proposta. E como tudo é cumprido no intuito do “ganho”, do bem-estar, alijado da convivência, qualquer desgaste ou perda que possa ocorrer, no entendimento a dois, traduz-se na irremediável iminência da separação. Não se produzindo a experiência, nem havendo uma aprendizagem, surgem outras relações que, ao se sucederem, se destroem como as anteriores. E tornam-se uma “bola de neve” em queda contínua.

A tecnologia traria uma  revolução extremamente positiva se, auxiliada e amparada por um posicionamento humano, pudesse aprimorar o espírito de cada cidadão, induzindo-lhe ensinamentos de ética e respeito, ao mesmo tempo elevando e valorizando a cultura. A escolha de uma especialidade na profissão, pretendida pelos jovens, lhes garantiria um bom nível econômico-social e poderia afastá-los do uso pernicioso da bebida e das drogas. Outra conquista seria a de ampliar o convívio no núcleo familiar e, entre amigos.

As escolas poderiam favorecer aos alunos condições de troca de experiências, nas diversas turmas do aprendizado e até no intercâmbio com outras instituições de ensino, avaliando-lhes os resultados e introduzindo um leque de aperfeiçoamento a cada participante; não somente visando ao aspecto da competição que hoje impera com “lente de aumento”.



A maioria da juventude ingressa no mundo vertiginoso das drogas, e o faz - a meu modo de ver - por fuga, apesar de sabe-las destrutivas. Tenta, por inexperiência, aliviar o convívio desumano e perverso que acontece em muitas famílias, ou mesmo em ambientes, os mais diferenciados. Não existe fraternidade, atualmente, em quase todos os membros de um grupo. Os indivíduos tornam-se seres solitários que habitam sob o mesmo teto, ou coexistem, apenas na mesma ambiência.

A convivência parece revelar propósitos de alegria, repletos de circunstâncias favoráveis. No entanto, a observação arguta conclui que a interação, que se apresenta como proposta, tem o intuito de alcançar bens materiais, muitas vezes desnecessários, tentando substituir um acompanhamento eficaz, afetivo nas fases em que a criança e o adolescente, ou mesmo qualquer pessoa carente, as estão vivenciando com o propósito de superá-las. E a delicadeza que deveria ser indispensável ao convívio, é substituída pela  ganância, conseguida a qualquer custo: “tudo deve ser revertido em favor dos filhos, ou em benefício do crescimento econômico da sociedade”, diz o slogan. Que engano!

A humanidade, no seu modo de viver atualmente, está comprometida com índices de supérfluos surpreendentes. Por que, e de que maneira, deixamos de atender à prioridade do que é essencial, do que é básico? Que sociedade é esta nossa, dispersa, emaranhada em supostos valores que a sufocam? Não seria de todo conveniente pensar e apreender traços que a verdade a cada minuto revela; regras fundamentais do viver harmonioso; percepção das diferenças existentes entre os indivíduos,  dentro da singularidade das suas fases ou circunstâncias - idade, âmbito de intelectualidade, afeição e sobretudo anular o pensamento discriminatório, como por exemplo, o das etnias?

A nossa alma inserida no íntimo de cada um de nós, encontra-se impedida de se revelar em aspectos tão substanciais e necessários ao desenvolvimento e bem estar. Sucumbe no caos de uma realidade infrutífera, mesmo na suposta aparência de uma pretensa felicidade. Aos observadores demonstra-se o resvalar de degrau em degrau, a abismos que nem sequer poderemos aferir. 

O milagre, porém, talvez ainda aconteça com a anuência do universo, se transformarmos a nossa postura em desvelo e compromisso tenaz, à custa de  determinação, tentando modificar o ambiente do nosso convívio.

Pensemos e ajamos, positivamente; com urgência!

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O fundamentalismo neo-liberal e o técnico-científico

por Leonardo Boff




O fundamentalismo neo-liberal e o técnico-científico

O fundamentalismo não possui apenas um rosto religioso. Todos os sistemas seja culturais, científicos, políticos, econômicos e artísticos que se apresentam como portadores exclusivos de verdade e de solução única para os problemas devem ser considerados fundamentalistas. Vivemos atualmente sob o império feroz de vários fundamentalismos.

O primeiro e mais visível de todos é o fundamentalismo da ideologia política do neo-liberalismo, do modo de produção capitalista e de sua melhor expressão, o mercado mundialmente integrado. Ele se apresenta como a solução única para todos os países e para todos as carências da humanidade (todos precisam de um necessário choque de capitalismo,diz-se fundamentalisticamente). A lógica interna deste sistema, entretanto, é ser acumulador de bens e serviços, por isso, criador de grandes desigualdades (injustiças), explorador ou dispensador da força de trabalho e predador da natureza. Ele é apenas competitivo e nada cooperativo. Politicamente é democrático, economicamente é ditatorial. Por isso a economia capitalista destrói continuamente a democracia participativa. Onde se implanta, a cultura capitalista cria uma cosmovisão materialista, individualista e sem qualquer freio ético. Há teóricos que apresentam essa etapa como o fim da história. Para ela não haveria alternativa. Urge inserir-se nela. Caso contrário perde-se o ritmo da história. A condenação é a marginalidade ou a exclusão. Eis o pensamento único e a ditadura da globalização especialmente econômico-financeira (considero esta etapa como a idade de ferro da globalização), hegemonizada pelas potências ocidentais.




Outro tipo de fundamentalismo comparece no paradigma científico moderno. Ele está assentado sobre a violência contra a natureza. Bem dizia Francis Bacon, pai da moderna metodologia científica: há de se torturar a natureza como o faz o inquisidor com seu inquirido, até que ela entregue todos os seus segredos. Impõe-se esse método, fundado no corte e na compartimentação da realidade una e diversa, como a única forma aceitável de acesso ao real. Desmoralizam-se outras formas de conhecimento que vão além ou ficam aquém dos caminhos da razão instrumental-analítica. Ocorre que o projeto da tecno-ciência gestou o princípio da auto-destruição da vida. A máquina de morte já construída pode pôr fim à biosfera e impossibilitar o projeto planetário humano. Na guerra bacteriológica, basta meio quilo de toxina do botulismo para matar um bilhão de pessoas.

O fundamentalismo político de Bush e de Bin Laden

Nos dias atuais assistimos, estarrecidos, a dois tipos de fundamentalismo político. Um representado pelo presidente dos USA George W. Bush.e outro por Osama Bin Laden. O Presidente norte-americano urde seus discursos no melhor código fundamentalista: A luta é do bem (América) contra o mal (terrorismo islâmico). Ou se é contra o terrorismo e pela América ou se é a favor do terrorismo e contra a América. Não há matizes nem alternativas. O ataque terrorista não foi contra os USA mas sim contra a humanidade, na suposição que eles são a própria humanidade. O projeto inicial de guerra se chamava Justiça Infinita, termo que usurpa a dimensão do Divino. Depois com menor arrogância, mas na linguagem da utopia, chamou-se de Liberdade Duradoura. Termina suas intervenções com "God saves America". Há dezenas de anos que a política exterior dos USA maltrata as nações árabes fazendo pacto com governantes despóticos (alguns emirados árabes nem constituição possuem) em razão da garantia do suprimento de petróleo. A partir de 1991 por ocasião da guerra contra o Iraque já morreram naquele pais cerca de um milhão de crianças por causa do embargo que atinge os suprimentos medicinais e 5% da população foi morta em sistemáticos bombardeios. A atuação no conflito entre Israel e os palestinos é a posiçãos dos USA visivelmente unilateral, em favor dos ataques devastadores que a máquina de guerra israelense move contra a população palestina que usa pedras(intifada). A Arábia Saudita é ocupada por uma poderosa base militar norte-americana, território sagrado do islamismo onde se situam as duas cidades santas Meca e Medina. Tal fato é para a fé islâmica tão vergonhoso quanto um católico tolerar a Máfia no governo do Vaticano. Tais fatos acumulam amargura, ressentimento, revolta e vontade de vindita. É o fermento do terrorismo muçulmano cujos efeitos nefastos todos assistimos e condenamos.

Não menos fundamentalista é a retórica dos Talibans e de Osama Bin Laden Este também coloca a guerra entre o bem (islamismo) e o mal(a América). Em seu famoso discurso após o atentado, divide o mundo entre dois campos: o campo dos fiéis e o campo dos infiéis. "O chefe dos infiéis internacionais, o símbolo mundial moderno do paganismo, é a América e seus aliados".O atentado terrorista significa que "a América foi atacada por Deus em um dos seus órgãos vitais…Graça e gratidão a Deus". A cultura ocidental como um todo é vista como materialista, atéia, secularista, anti-ética e belicista. Daí a recusa em dialogar com ela e a vontade de estrangulá-la em nome do próprio Allah.

Em nome de que Deus ambos falam? Não é seguramente em nome do Deus da vida, de Allah, o Grande e Misericordioso, nem em nome do Pai de Nosso Senhor Jesus Cristo, da ternura dos humildes e da opção pelos oprimidos. Falam em nome de ídolos que produzem mortes e vivem de sangue.

É próprio do fundamentalismo responder terror com terror, pois se trata de conferir vitória à única verdade e ao bem e destruir a falsa "verdade" e o mal. Foi o que ambos, Bush e Bin Laden fizeram. Enquanto predominarem tais fundamentalismos seremos condenados à intolerância, à violência e à guerra e, no termo, à ameaça de dizimação da biosfera.

Como conviver com o fundamentalismo?

Não se há de sorrir nem de chorar. Mas de procurar entender. Todos os fundamentalismos, não obstante o vário matiz, possuem as mesmas constantes. Trata-se sempre de um sistema fechado, feito de claro e de escuro, inimigo de toda diferenciação e cego face à lógica do arco-iris, onde a pluralidade convive com a unidade. Cada verdade se encontra idissoluvelmente concatenada à outra. Questionada uma, desaba todo o edifício. Daí a intolerância e a lógica linear. Daí sua força de atração para espíritos sedentos de orientações claras e de contornos precisos. Para o fundamentalista militante a morte é doce, pois transporta o mártir diretamente ao seio materno de "Deus" enquanto a vida é vivida como oportunidade de cumprir a missão divina de converter ou exterminar os infiéis. O grupo é o lar da identidade, o porto da plena segurança e a confirmação de estar do lado certo.

Como enfrentar os fundamentalistas? Estes são praticamente inacessíveis à argumentação racional. Nem por isso deve-se renunciar ao diálogo, à tolerância e o uso da razão para mostrar as contradições internas, subjacentes ao discurso e à prática fundamentalista. Por detrás do fundamentalismo político vigora uma experiência dolorosa de humilhação e de prolongado sofrimento. E procura-se infligir a mesma coisa ao outro, o que é manifestamente contraditório. Trazer o fundamentalista à realidade concreta, cheia de contradições, claro-escuros e nuances pode introduzir nele a dúvida e a insegurança. Estas possuem uma função terapêutica. Podem abrir uma brecha para a luz no muro das convicções cerradas e excludentes. Dialogar até a exaustão, negociar até o limite intransponível da razoabilidade, pode levar o fundamentalista a reconhecer o outro, seu direito de existir e a contribuição que poderá dar para uma convergência mínima na diversidade.

Estamos numa encruzilhada da história humana. Ou criar-se-ão relações multipolares de poder, equitativas e inclusivas com pesados investimentos na qualidade total da vida para que todos possam comer, morar com mínima dignidade e apropriar-se de cultura com a qual se possam comunicar com seus semelhantes, preservando a integridade e beleza da natureza ou iremos ao encontro do pior, quem sabe, ao mesmo destino dos dinossauros. Armas para isso existem e sobra demência. Faz-se urgente mais sabedoria que poder e mais espiritualidade que acúmulo de bens materiais. Então os povos poderão se abraçar como irmãos na mesma Casa Comum, a Terra, e irradiaremos como filhos da alegria e não como condenados ao vale de lágrimas.


Fonte: http://leonardoboff.com/

quarta-feira, 21 de março de 2012

Viver o presente


O Ilê Axê Opô Afonjá, um dos mais famosos e venerados templos do Candomblé baiano, completou cem anos de existência. Nas comemorações, alguém lembrou o título de um dos livros de sua Yalorixá, Mãe Stella de Oxossi: “Meu tempo é agora”. Nada de saudosismos de quem se se lamenta: “no meu tempo, não era assim...” para indicar um passado que não volta mais. Nem, ao contrário, projetar-se em um amanhã que ainda não existe. Viver o presente é assumir a realidade pessoal nossa e do mundo de hoje, não como fardo ou situação da qual não podemos escapar, mas como algo que, apesar de suas dores e dificuldades, precisamos vivê-lo para o transformarmos. Situar-se plenamente no presente é um ensinamento da maioria das tradições espirituais. Buda ensinava seus discípulos a se libertar das preocupações passadas e futuras e simplesmente centrar-se no presente. O evangelho conta que, no sermão da montanha, Jesus disse aos discípulos: “A cada dia basta o seu cuidado próprio” (Mt 6, 34). Ao caminhar para Jerusalém, onde sabia que iria sofrer, disse aos discípulos: “Se alguém quer me seguir, a cada dia, tome a sua cruz e me siga” (Lc 9, 23). Tomar a cruz de cada dia é assumir os compromissos e encargos da missão que temos hoje, como discípulos/as do mestre, no testemunho do projeto divino para o mundo.


Esta abertura plena do ser ao presente ajuda a pessoa a se atualizar continuamente e a se abrir para uma transformação sempre possível. Viver profundamente o presente nos capacita melhor, intelectual e emocionalmente, para conviver conosco mesmo e com os outros. Em certas línguas modernas, o termo perplexidade expressa algo negativo. As pessoas se dizem perplexas com algo que não compreenderam ou não aceitam. Entretanto, de fato, etimologicamente, este termo vem do verbo latino plectere que signifca tecer, tramar e do advérbio per que indica completude, perfeição. Assim, o sentido mais profundo de uma pessoa perplexa é de alguém que se abre à estranheza do presente. A perplexidade é a capacidade de se deixar tecer interiormente na trama de uma realidade em constante mutação. Esta disponibilidade de abrir-se ao desconhecido que, cada dia, vem ao nosso encontro, faz de nós, pessoas cosmopolitas (cidadãos do mundo e do universo.

As religiões devem servir para educar as pessoas a viver o presente. Muitas vezes, parece que Igrejas e religiões nos prendem mais a um mundo de tradições e costumes antigos, sem nos libertar para viver o presente. Entretanto, não se pode confundir Tradição com tradicionalismo. Manter a Tradição é uma forma de atualizar o que Carlos Mesters chama de “memória perigosa” para viver o hoje divino na realidade humana. Ao contrário, o tradicionalismo nos prenderia ao passado, por repetir fórmulas, perpetuar costumes e roupagens de antigamente, por mera nostalgia e falta de coragem de viver o hoje de Deus. Uma religião assim seria não o sacramento, mas o túmulo de uma verdadeira espiritualidade.

Nos evangelhos, Jesus interpela os seus contemporâneos: “À tarde, vocês olham o céu e sabem que vai chover, porque as nuvens estão carregadas. Quando sentem o vento vir do sul, sabem que haverá tempestade. Por que, então, não são capazes de discernir os sinais deste tempo presente?” (Mt 16, 2 – 3). Hoje ainda, ele continua a pedir a cristãos/ãs e a todas as pessoas que buscam a Deus que se abram ao tempo presente e descubram na realidade atual sinais da graça e da salvação. Para isso, é preciso reencantar o nosso olhar e nos tornar mais confiantes e esperançosos na permanente vitória do amor sobre a indiferença e o vazio.

As tradições ancestrais indígenas e afro-descendentes nos fazem descobrir, em nosso cotidiano, o milagre da presença divina em uma folha da mata, no sussurrar do vento e no barulho da água, ao cair em meio às pedras. As religiões orientais nos fazem ser presentes ao mundo através da respiração profunda e da consciência do Buda em nós, assim como do aprendizado da compaixão. O Judaísmo nos chama a descobrir uma palavra divina em cada apelo de justiça. Baseado em uma antiga oração judaica, Jesus de Nazaré nos ensina a pedir ao Pai: “Venha o teu reino e dá-nos, hoje, o pão de cada dia” (Mt 6, 9 ss).

Em seu disco clássico Refavela, Gilberto Gil incluiu uma música que se chama Nova Era, na qual ele canta: “Falam tanto de uma nova era. Quase esquecem do eterno é. Se você puder me ouvir agora, já significa que dá pé. Novo tempo sempre se inaugura a cada instante que você viver. O que foi já era. E não há era, por mais nova que possa trazer de volta o tempo que você perdeu” .





Marcelo Barros é Monge Beneditino e escritor 

Fonte:
http://www.brasildefato.com.br/node/118

quarta-feira, 14 de março de 2012

Caos generativo e vida

por Leonardo Boff

A biologia e a astrofísica são seguramente os campos que mais têm contribuido para a nova visão do mundo (cosmologia). A isso chegou-se por caminhos atormentados embora complementares.

Os formuladores da física quântica como Niels Bohr (1885-1962) e Werner Heisenberg (1901-1976), em tantos pontos discordantes, convergiam nisso: que a física quântica era boa para explicar fenômenos ligados às partículas elementares, mas insuficiente para dar conta da vida.



“A vida mostra uma diversidade tal que ultrapassa a capacidade de compreensão da análise científica” sentenciava Bohr em sua famosa conferência de 1932 sobre “Luz e Vida”. 


W. Heisenberg, de quem pude ser ainda aluno, num seminário para doutorandos nos meus tempos de Munique em 1967, referindo-se a um longo diálogo com Bohr concluia dizendo: “Sonhamos com o dia em que a biologia venha a fundir-se tão completamente com a física e a química quanto se fundiram a física e a química na mecânica quântica”(Diálogos sobre a relação entre biologia, física e química, de 1930-1932).

Esse dia chegou com IlyaPrigogine(*1917), prêmio Nobel de 1977 ao aplicar os princípios da física quântica aos fenômenos longe do equilibrio. Tudo funcionou a contento, ao mostrar que a vida emerge do caos (Order from chaos), portanto, a vida irrompe da matéria quando longe do equilíbrio. A vida representa auto-organização da matéria (autopoiesis).

Para apreendermos a relevância desta afirmação precisamos ultrapassar a compreensão “materialista” da matéria e resgatar seu sentido originário: de mater (mãe, donde vem matéria) de todas as coisas. A matéria é energia densificada, é altamente interativa, é fonte de espiritualidade como o enfatizava sempre Teilhard de Chardin.

Atingido certo grau de complexidade da matéria, nos diz outro prêmio Nobel de medicina, 1974, Christian de Duve (*1917) em seu famoso livro Poeira Vital (1995), a vida surge como imperativo cósmico em qualquer parte do universo.



Unindo essa visão, na linha de Darwin, com a teoria da evolução ampliada, gestou-se uma visão coerente de todo o universo. Já não há compartimentos estanques e paralelos, de um lado seres orgânicos e de outro seres inorgânicos. Há distintos níveis de complexidade e de ordens dentro de um continuum cósmico de energias em inter-retro-conexões que articulam a ordem-desordem-nova ordem, fazendo surgir, num determinado momento, a vida em toda sua esplêndida diversidade. E dentro da vida, como expressão de uma complexidade ainda maior, a consciência reflexa dos seres humanos.

Por mais diversas que sejam as formas de vida, todas elas provém de um único ser vivo primordial, surgido há 3,8 bilhões de anos. Todos os seres vivos, desde os mais ancestrais, passando pelo dinossauros, os colibris, os cavalos e por nós, seres humanos, são formados por 20 aminoácidos e quatro bases fosfatadas. Esse é o alfabeto universal com o qual se escrevem todas as palavras vivas: a incomensurável biodiversidade da natureza.

Somos, fundamentalmente, todos irmãos e irmãs como consequência de uma constatação científica, coisa que SãoFrancisco, pelo caminho da mística cósmica, já o havia intuido há 700 anos.



Se fizermos deste dado objetivo do processo cosmogênico e biogênico, projeto da vontade política coletiva e propósito pessoal, seremos capazes de transformar o mundo: surgirá uma nova democracia sócio-cósmica, um pacto social que não incluirá apenas seres humanos, mas toda a comunidade de vida, finalmente, reconciliada consigo mesma e com sua raiz comum: a matéria sagrada e misteriosa do universo.


sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

O filho de Shiva!

por Hanna, colaborador Ganapati

Outubro de 2010, um ano do grupo Ganapati, um ano do jornal que luta quixotescamente por um mundo mais humanizado, um mundo mais justo, ético e espiritualizado.

Um ano enfrentando críticas por vezes ferozes, sarcasmo de muitos, além de grosserias gratuitas e desnecessárias. Porém, neste ano, quantos não foram tocados pela mensagem da nova sociedade verde que tanto sonhamos.

Quantos nos procuraram falando do esforço que estavam fazendo por mudar costumes arraigados de tantos anos, e se tornaram vegetarianos, veganos ou diminuíram o o consumo de carne, e estavam se sentindo de bem com a vida. Quantos abandonaram as famigeradas sacolas plasticas, ou o desperdício de água, energia, quantos começaram a mudar seus hábitos consumistas e de exploração animal. Por todos os que nos mandam e-mails, por todos que aproveitam essa leitura, por tantos que despertaram, eu fico feliz.

Porém se apenas uma pessoa tivesse mudado, se apenas um de vocês deixasse de ter uma alimentação violenta, já teria valido a pena , e eu estaria comemorando da mesma maneira este mês de aniversário do menino Ganapati, do desobstrutor de caminhos, do renovador filho de Shiva, que anuncia uma nova era...

Faço minhas as palavras de Carlos Maltz em seu blog :
“Do alto dos seus milhões de anos de idade, os astros não se abalam muito com pouca coisa. Já viram impérios outrora indestrutíveis virarem ruínas… Já viram civilizações que antes ditavam as regras virarem pontos turísticos… Viram demônios virarem santos, santos virarem demônios, metalúrgicos virarem presidentes, astros do rock virarem astrólogos, políticos outrora muito populares virarem Judas… enfim, eles já viram de tudo. E sabem que 'a vida vem em ondas como o mar'… Vem e vai… Vai e vem…

Pode nos lembrar de que isso é um ciclo e que os ciclos têm a sua natureza, necessidade e duração. E que ciclo é este? O céu está pesado. O velho e o novo estão cara a cara para um confronto que já se anuncia há algum tempo. E agora não tem mais como 'empurrar com a barriga', não tem mais para onde correr.



O que está vindo pela frente? Quem tiver olhos verá. Um velho mundo morrendo e outro, novo, nascendo. Todos já estamos sentindo a onda gigante de renovação que está chegando. As mudanças acontecem em todos os níveis: no planeta, em nosso país, aqui em Brasília e também, como não poderia deixar de ser, em nossos lares, consciências e em nossas vidas. Todos gostam de mudanças, mas quase ninguém gosta quando elas começam a acontecer em nossa vida, de verdade.

Quase todos nós, conscientes disso ou não, admitamos isso ou não, somos apegados aos modelos e estilos de nossa vida, por mais deficientes e causadores de sofrimento que eles sejam. Faz parte de nossa natureza. Somos, todos, mais ou menos conservadores. Basta ver quando algo realmente novo chega à Terra – a reação contrária que causa e a pouca adesão que conquista num primeiro momento.

O cristianismo, hoje, é uma potência política e econômica, influindo em governos, movimentando bilhões e capitaneando guerras. Mas, no começo, ele se limitava a 12 pessoas e, durante 500 anos, nos seus primórdios, ser simpático às suas ideias era motivo bastante para mandar alguém ser almoço dos leões.

Só que há momentos em que não existe escolha: é mudar ou mudar. E este é um desses momentos. Todo esse transtorno, esse rebuliço em nossas vidas são as mudanças chegando e batendo na porta dos nossos velhos estilos de vida, que se defendem como podem. Com unhas e dentes, como Saturno e Marte sinalizam.

Será que estamos dispostos a mudar? Será que sabemos o que precisamos mudar? Ou será que ainda estamos pensando que os problemas em nossas vidas são causados pelo ex, pela ex, pelos filhos, pela sogra, pelo Lula, pelo Arruda, por nossos inimigos, Deus, o diabo, etc.?

O tsunami da transformação planetária está batendo na praia. Ou pegamos essa onda e vamos com força para a frente, ou ela nos pega e quebra a espinha dorsal de nossas resistências. A hora de mudar é agora. Se a sua vida já está de pernas para o ar e você não está dando conta sozinho, procure ajuda. Um médico, padre, psicólogo, terapeuta, um amigo de verdade. Enfim, alguém que possa ajudá-lo a se enxergar, pois nós não viemos equipados de fábrica com espelho retrovisor. Somos todos muito hábeis para enxergar cisco no olho do irmão e cegos para ver a trave em nosso próprio olho.”

As turbinas foram ligadas, nos diz Sai Baba, não há mais tempo: ou muda, ou muda! O mundo urge, a vida urge! É tempo de mudanças. Avante Ganapati!


terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Curtinhas... - Romain Rolland



"Milhares de animais são abatidos inutilmente todos os dias sem sombra de remorso. Se algum homem se referir a isso, será considerado ridículo — e este é um crime imperdoável." Romain Rolland, escritor francês, Prêmio Nobel e vegetariano