por Maria Lúcia Lauria Chiappetta
Surpreende-me sempre a maneira como o comum das pessoas se comporta no seu cotidiano. Não percebe o milagre que cada manhã oferece a olhos atentos e serenos. A natureza se esmera ao proporcionar a abundância e o descortínio do belo.
Os humanos que somos os racionais - na maioria desatentos ou indiferentes, cumprem sôfregos as obrigações imediatas do dia-a-dia, sem observar-lhes a relevância. O restante do tempo é destinado às exigências que o progresso enseja, na sua modernidade: desmedida ganância, suscitando constante apelo, vaidade pretensiosa, horas e horas dedicadas ao computador e à televisão, na conjuntura de jogos eletrônicos, no envio de mensagens inúteis ou de conteúdos vazios que nada acrescentam ao desenvolvimento de cada um, como pessoa. O comportamento virtual desperta o crescimento generalizado do individualismo, acarretando uma indiferença sistêmica e cruel ao flagelo do sofrimento.
Tão exacerbado é o sexo, como escape, motivando gozo e deleite transitórios, quanto na sua satisfação se supõe alcançar o nível elevado da relação proposta. E como tudo é cumprido no intuito do “ganho”, do bem-estar, alijado da convivência, qualquer desgaste ou perda que possa ocorrer, no entendimento a dois, traduz-se na irremediável iminência da separação. Não se produzindo a experiência, nem havendo uma aprendizagem, surgem outras relações que, ao se sucederem, se destroem como as anteriores. E tornam-se uma “bola de neve” em queda contínua.
A tecnologia traria uma revolução extremamente positiva se, auxiliada e amparada por um posicionamento humano, pudesse aprimorar o espírito de cada cidadão, induzindo-lhe ensinamentos de ética e respeito, ao mesmo tempo elevando e valorizando a cultura. A escolha de uma especialidade na profissão, pretendida pelos jovens, lhes garantiria um bom nível econômico-social e poderia afastá-los do uso pernicioso da bebida e das drogas. Outra conquista seria a de ampliar o convívio no núcleo familiar e, entre amigos.
As escolas poderiam favorecer aos alunos condições de troca de experiências, nas diversas turmas do aprendizado e até no intercâmbio com outras instituições de ensino, avaliando-lhes os resultados e introduzindo um leque de aperfeiçoamento a cada participante; não somente visando ao aspecto da competição que hoje impera com “lente de aumento”.
A maioria da juventude ingressa no mundo vertiginoso das drogas, e o faz - a meu modo de ver - por fuga, apesar de sabe-las destrutivas. Tenta, por inexperiência, aliviar o convívio desumano e perverso que acontece em muitas famílias, ou mesmo em ambientes, os mais diferenciados. Não existe fraternidade, atualmente, em quase todos os membros de um grupo. Os indivíduos tornam-se seres solitários que habitam sob o mesmo teto, ou coexistem, apenas na mesma ambiência.
A convivência parece revelar propósitos de alegria, repletos de circunstâncias favoráveis. No entanto, a observação arguta conclui que a interação, que se apresenta como proposta, tem o intuito de alcançar bens materiais, muitas vezes desnecessários, tentando substituir um acompanhamento eficaz, afetivo nas fases em que a criança e o adolescente, ou mesmo qualquer pessoa carente, as estão vivenciando com o propósito de superá-las. E a delicadeza que deveria ser indispensável ao convívio, é substituída pela ganância, conseguida a qualquer custo: “tudo deve ser revertido em favor dos filhos, ou em benefício do crescimento econômico da sociedade”, diz o slogan. Que engano!
A humanidade, no seu modo de viver atualmente, está comprometida com índices de supérfluos surpreendentes. Por que, e de que maneira, deixamos de atender à prioridade do que é essencial, do que é básico? Que sociedade é esta nossa, dispersa, emaranhada em supostos valores que a sufocam? Não seria de todo conveniente pensar e apreender traços que a verdade a cada minuto revela; regras fundamentais do viver harmonioso; percepção das diferenças existentes entre os indivíduos, dentro da singularidade das suas fases ou circunstâncias - idade, âmbito de intelectualidade, afeição e sobretudo anular o pensamento discriminatório, como por exemplo, o das etnias?
A nossa alma inserida no íntimo de cada um de nós, encontra-se impedida de se revelar em aspectos tão substanciais e necessários ao desenvolvimento e bem estar. Sucumbe no caos de uma realidade infrutífera, mesmo na suposta aparência de uma pretensa felicidade. Aos observadores demonstra-se o resvalar de degrau em degrau, a abismos que nem sequer poderemos aferir.
O milagre, porém, talvez ainda aconteça com a anuência do universo, se transformarmos a nossa postura em desvelo e compromisso tenaz, à custa de determinação, tentando modificar o ambiente do nosso convívio.
Pensemos e ajamos, positivamente; com urgência!







